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Trigo em queda: o Brasil vai importar mais grãos do que em quase 20 anos

A produção nacional de trigo encolhe 27,1% neste ciclo o pior desempenho entre as principais culturas de grãos e empurra o país para a maior dependência externa do cereal desde 2006.

Análise com dados da Conab Setembro de 2026

embrapa
24 de Setembro de 2026

-27,1%é a queda projetada na produção de trigo do Brasil no ciclo 2025/26, ante a safra anterior.

A safra brasileira de trigo 2025/26 entra para a história mas pelos motivos errados. Segundo os dados mais recentes da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), divulgados em setembro de 2026, o país deve colher apenas 5,74 milhões de toneladas do cereal, um tombo de 27,1% em relação ao ciclo anterior. É o pior desempenho entre todas as principais culturas de grãos monitoradas pelo órgão neste ano enquanto soja, milho e algodão bateram recordes, o trigo foi na direção oposta.

Uma retração em cadeia: menos área, menos produtividade

O primeiro golpe veio do próprio produtor: a área destinada ao trigo encolheu 21,2%, caindo para 1,9 milhão de hectares. Em um cenário de margens pouco atrativas nos últimos anos, muitos agricultores do Sul do país especialmente no Rio Grande do Sul e no Paraná, tradicionais celeiros do cereal optaram por trocar o trigo por culturas concorrentes de inverno, como cevada e canola.

Quem manteve o trigo no planejamento também não teve um ciclo fácil. O rendimento médio por hectare deve fechar em torno de 2,9 mil quilos, uma queda de 7,5% ante a safra passada. Parte da explicação está no clima: a chegada de um El Niño forte trouxe chuvas acima do esperado para as regiões produtoras, um cenário que compromete tanto a qualidade quanto a produtividade do grão.

O fator financeiro por trás da decisão do produtor

Vale destacar que a retração não foi apenas climática foi também uma decisão racional de negócio. Segundo analistas da Conab, a remuneração obtida com a venda do trigo no início do ano, somada ao aumento dos custos dos insumos (pressionado pelo cenário internacional), tornou a lavoura menos atrativa financeiramente frente a alternativas como a canola. Em outras palavras: com menos gente disposta a plantar, a redução da área plantada foi quase uma consequência natural do próprio mercado.

O reflexo direto: importações batendo recorde histórico

Uma produção menor significa, inevitavelmente, mais dependência do trigo estrangeiro e os números aqui também impressionam. A Conab estima que o Brasil precisará importar 7,06 milhões de toneladas de trigo no ciclo 2026/27, volume que pode representar a maior importação do país desde 2006/07, quando foram compradas 7,164 milhões de toneladas recorde da série histórica iniciada em 2001/02.

A Argentina segue como o principal parceiro comercial do Brasil no trigo, papel que deve se manter neste ciclo. Mas o cenário deste ano tem uma novidade: a Rússia desponta como um fornecedor relevante para o segundo semestre, ampliando o leque de origens do grão que abastece os moinhos brasileiros um movimento que reflete tanto a necessidade urgente de volume quanto a busca por preços mais competitivos num mercado global aquecido.

E o preço do pão? Ainda não subiu, mas o alerta está ligado

Aqui está o dado que mais pode surpreender o consumidor: apesar da quebra de quase um terço na produção nacional, essa pressão ainda não chegou ao carrinho de compras. O IPCA da farinha de trigo, pelo contrário, registra queda de 4,33% no acumulado de 2026 e de 5,32% nos últimos 12 meses.

Isso não significa, porém, que o risco desapareceu. Analistas do mercado já apontam que o cenário de oferta doméstica reduzida tende a sustentar preços mais elevados do trigo nos próximos meses o efeito no bolso do consumidor pode simplesmente ainda não ter tido tempo de aparecer nas prateleiras.

Fonte: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26.


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